sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Industria da Carne: 1º lugar no ranking das doenças do trabalho e mutilações.

Ainda há esperanças. Um outro mundo melhor e de inclusão social é possível. A construção coletiva desse ideário pela dignidade humana e planetária está em expansão, anunciando novos patamares civilizatórios à humanidade. Enquanto isso, a busca da efetividade dos direitos legislados equilibradores das relações entre capital e trabalho é motivo de preocupação e concretização pelos diversos atores sociais, em especial por parte dos operadores do direito, advogados, procuradores, magistrados, professores.

Assunto que tem despertado a atenção no mundo do trabalho é a questão relacionada aos acidentes do trabalho e dos adoecimentos ocupacionais que mancha a trajetória do Brasil, dentre os países civilizados, passando, em razão do reiterado descumprimento das normas de saúde e segurança do trabalho a ser considerado como “Campeão Mundial em Acidentes do Trabalho”.

Todos sabemos que nossa legislação infortunística é uma das melhores do mundo. Pena que é em seu quotidiano, descumprida, quer por conivência dos órgãos públicos encarregados da fiscalização, quer pela prevalência do interesse patrimonialístico ao arrepio da legislação social vigente no país que obriga o empregador a assegurar meio ambiente laboral sem riscos de acidentes e ou de desenvolvimento de adoecimento ocupacional.

Sabedora a magistrada do trabalho de Joaçaba (SC) do quadro de tragédia que a empresa vem ocasionando por seu método de trabalho e produção, gerando uma “legião de lesionados, tudo com comprovação nos autos através das relações de benefícios previdenciários” e visando a concretização da entrega jurisdicional pela efetividade da lei de proteção à Saúde do Trabalhador, de se destacar as conclusões e princípios fundantes aplicados na decisão inédita já proferida pela juíza do Trabalho, Lisiane Vieira, da Vara do Trabalho de Joaçaba (SC).

Acolhendo o pedido em antecipação de tutela na ACP, a Juíza determina à BRF (empresa formada a partir da união entre Perdigão e Sadia) que regularize a situação trabalhista e o ambiente de sua fábrica de Capinzal (SC), que emprega cerca de 7.000 pessoas, observando rigorosamente a as normas de saúde e segurança do trabalho e emita a CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) de todos os casos de acidentes de trabalho e ou de adoecimentos ocupacionais que se verificar na fábrica, sob pena de pagamento de multa diária de R$ 10 mil, por caso não identificado.

O exemplo dessa escorreita Ação Civil Pública intentada em Santa Catarina pelo Ministério Público do Trabalho e subscrita pelo renomado Procurador do Trabalho de Santa Catarina, Sandro Sarda, ACP 1327.2009.012.12.00.0, bem demonstra o relevantíssimo papel social que vem desenvolvendo a instituição no sentido de que a lei foi feita para ser cumprida e observada, cobrando-se do capital sua responsabilidade social por assegurar ao trabalhador trabalho digno e de qualidade em meio ambiente laboral, livre de riscos de acidentes e ou de desenvolvimento de adoecimento ocupacional.

A indústria alimentícia da carne, em especial a do frango/suíno, apesar da altíssima produtividade e lucratividade decorrente de sua atuação quer no mercado interno de consumo, quer no internacional, tem sido reconhecida como uma indústria mutilante que ceifa a vida digna de grande parte de seus empregados, porque implanta maquinários à produção e industrialização que atendem tão somente ao objetivo do lucro a qualquer custo, à alta produtividade, mas não atendendo, na outra ponta, à “ADEQUAÇÃO DA MÁQUINA/DA PRODUÇÃO AO HOMEM – adequação domobiliário ao homem que trabalha; adequação do ritmo da produção ao homem que trabalha; adequação do tempo de trabalho ao homem que trabalha; implementação de pausas durante o trabalho de acordo com o tipo de trabalho e com as necessidades do homem que trabalha”, como reconhece a sentença.
Instrumentalizando o processo e procedência do pedido, relevante ainda observar as conclusões acertadas do Procurador do Trabalho Guilherme Kirtsching da Procuradoria do Trabalho em Joaçaba que esclarece:

“as atuais condições de trabalho são absolutamente incompatíveis com a saúde física e psíquica dos trabalhadores. Cerca de 20% dos trabalhadores da empresa ré vem sendo acometidos de doenças ocupacionais, em razão da inadequação do meio ambiente de trabalho. Há um enorme contingente de jovens empregados acometidos de doenças ocupacionais, com agravos à saúde incompatíveis com esta faixa etária”.

“Existem casos de jovens com 19 anos já acometidos de doenças ocupacionais. Estamos, portanto, a consumir produtos fruto de sofrimento humano, em grave e direta afronta aos princípios constitucionais que asseguram à dignidade humana, à saúde e a vida. A adoção de pausas de recuperação de fadiga, nos termos da NR 17, a redução do tempo de exposição e a adequação do ritmo de trabalho também são medidas indispensáveis e que também são objeto da ação civil pública”.

De se destacar, ainda, o relevantíssimo papel de agente da transformação social que vem sendo desempenhado pelo Ministério Público do Trabalho e pelos procuradores do Ministério do Trabalho e Emprego, que, preocupados com as já conhecidas condições desajustadas de trabalho dos empregados em frigoríficos, têm atuado em conjunto e ou mesmo individualmente, no sentido da concretização e efetividade da legislação infortunística, exigindo-se do empregador que cumpra com sua obrigação e responsabilidade social, investindo em prevenção, eliminando os riscos do seu meio de produção, deixando de praticar as repudiadas subnotificações acidentárias, bem como as exigências de jornadas exaustivas, repetitivas, estressantes, causa principal dos adoecimentos ocupacionais e preocupantes que envolve o setor.

No mesmo sentido, conclui o Procurador do Trabalho de Santa Catarina Gean Carlo serem as Ler-Dorts (lesões por esforço repetitivos), bem como as doenças da coluna, as principais causas de tantas mutilações que ocorrem com os trabalhadores nos frigoríficos: “As lesões por esforço repetitivo e doenças da coluna estão entre as principais doenças ocupacionais que acometem os empregados desse setor.

“Há vários casos reconhecidos pelo INSS de doenças do trabalho, principalmente nos pulsos, mãos, ombros, que estão diretamente relacionados ao esforço repetitivo e ao frio. A baixa temperatura diminui o aporte de sangue às extremidades do corpo. Se o trabalho exige esforço das mãos, por exemplo, a tendência é ele sofrer rapidamente lesões nessa parte do corpo”.

Igualmente, Siderlei Oliveira, presidente da Contac, Confederação dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação, Agroindústrias, Cooperativas de Cereais e Assalariados Rurais, conhecedor profundo do setor e de seus problemas relativos à saúde do trabalhador, reafirma os motivos que levam a tantas mutilações de trabalhadores e infortúnios laborais pelo trabalho estressante, repetitivo e sem pausas na vida do trabalhador em frigoríficos:

“As empresas elevaram suas metas de produção sem ampliar o número de trabalhadores. Os trabalhadores estão num ritmo insuportável. A máquina dita o ritmo de trabalho no setor agrícola. O trabalhador faz esforço físico repetitivo, durante 8 horas e em ambiente de baixa temperatura. A combinação disso é uma serie de lesões graves, nos tendões, nos ombros, nos membros superiores.”
Conclusão

Louvamos esse importantíssimo trabalho de cunho social em busca da efetividade da legislação infortunística em nosso país que vem sendo desenvolvido pelo Ministério Público do Trabalho de modo geral e em especial o que vem sendo executado em Santa Catarina, bem como cumprimentamos o Poder Judiciário Trabalhista pela entrega da justa e equilibrada prestação jurisdicional de mérito, dando procedência à Ação Civil Pública.

por Luiz Salvador, Presidente da Abrat, é membro do corpo técnico do Diap, no portal da Fenajud


Carta dos Frigoríficos enviada ao Ministro do Trabalho causa reação internacional, carta nega as doenças profissionais, diz que as doenças não existem e que é uma questão ideológica…leia mais

BRF é condenada por Causar LER a trabalhadores…leia mais.

Postado por Cássia Filetti

BRF unidade de Toledo no Paraná será submetido a pericia judicial em toda fábrica, que emprega mais de 8.800 empregados. A determinação parte da Juíza de Direito da Comarca de Toledo/PR., SIMONE GALAN DE FIGUEIREDO, para subsidiar uma Ação Civil Pública movida contra a Sadia (BRF) pelo MPT e AP-LER. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

SADIA vai a julgamento em Ação Civil Publica que pede condenação de R$ 50 milhões de indenização por dano social.

A Ação Civil Publica foi ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho – Ofício de Cascavel e a AP-LER Associação dos Portadores de Lesões por Esforços por conta das graves violações aos direitos fundamentais dos trabalhadores da referida empresa.


A Audiência  de julgamento da ACP 01428-2010-068-09-00-5 foi realizada no dia 28 de novembro de 2011 ás 17h05min na Vara do Trabalho de Toledo PR, sob a direção da Exma. Juíza SIMONE GALAN DE FIGUEIREDO. 

Foram realizadas várias audiências de conciliação entre a AP-LER e o Ministério Público do Trabalho com a BRF Sadia/Perdigão.

As partes realizam AJUSTE PARCIAL, no presente feito, sendo que a Ré assume as  obrigações, sob pena de multa no valor de R$ 1.500,00 por obrigação descumprida e por empregado, sem limite máximo.

Considerando o termo de audiência realizada no Ministério Público do Trabalho no dia 23/11/2011 e a fim de dirimir a controvérsia existente nos autos, designa-se perícia, a ser realizada no setor produtivo de aves e suínos, para apuração dos seguintes pontos:

a) as irregularidades relacionadas às NR's 17, 7, 9 e 12;

b) organização de trabalho em forma de linha de produção / impactos de tal organização na saúde e segurança do trabalhador;

c) elevada incidência de afastamento / queixas / adoecimentos (dados de reclamações trabalhistas, dados da previdência social, informações da empresa, ações fiscalizatórias, dentre outros).

Para tanto, indico como perito o Dr. Paulo Antônio Oliveira, considerando já ter atuado em lides semelhantes em outros Estados e pela aptidão técnica que possui. Para tanto, o mesmo deverá ser intimado, a fim de que se manifeste se aceita o encargo e para que informe uma estimativa do tempo para a realização da perícia e o valor que pretende.

 “O resultado do descumprimento às normas de saúde e segurança é uma verdadeira epidemia de doenças ocupacionais nos trabalhadores. Doenças que poderiam ser evitadas ou minimizadas com o cumprimento da legislação e a adoção de medidas preventivas, como cuidados ergonômicos, instituição de rodízios eficazes, pausas, diminuição do ritmo de trabalho, adequação do mobiliário, dentre outras. A omissão da Sadia vem gerando danos irreparáveis à saúde dos trabalhadores, que muitas vezes ficam incapacitados para o trabalho e até para execução de atividades da vida diária”, complementou o Procurador do Trabalho Bruno Ament.

A Procuradora SUELI TEIXEIRA BESSA, do  Ministério Público do Trabalho reitera o pedido de antecipação de tutela que não foram objeto do acordo parcial celebrado às fls. 345-verso e que não são objeto de perícia.
 
Diante disso, foi redesignado audiência para o dia 17/04/2012, às 14h00min., mantidas as cominações legais pertinentes.

Diante do dano social gerado pela prática adotada,  pediu à Justiça do Trabalho de Toledo a condenação da empresa ao pagamento de indenização de R$ 50 milhões a ser revertido em benefício da coletividade de trabalhadores e permitir a recomposição do dano coletivo. “O valor de R$ 50 milhões pelo desrespeito às normas de medicina e segurança do trabalho, que ocasionaram e ocasionam o surgimento de várias doenças, muitas incuráveis, não é excessivo, ainda mais considerando a relevância da Sadia para a sociedade brasileira, que, certamente, serve como paradigma de conduta no âmbito empresarial”, conclui o procurador.

Esperamos que assim, de uma vez por todas possamos garantir a dignidade das pessoas que vivem do trabalho nesta grande indústria de alimentos, que produz também  uma legião de mutilados.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Operáio perde a vida em Acidente de Trabalho na Sadia

Aconteceu na madrugada desta sexta-feira (25/11/11) na unidade da Sadia de Toledo Paraná, mais um acidente de trabalho fatal. Segundo as primeiras informações, aconteceu no Elevador do setor de rações.

A vitima foi o jovem operário Alam Junior Ramos da Silva de 20 nos de idade.

Já é o segundo acidente fatal com o Elevador nesta mesma unidade.

A Procuradoria do Trabalho já foi acionada e certamente, como sempre faz nestes casos, irá acompanhar de perto a investigação do acidente de trabalho e tomar s medidas cabíveis para o caso.

A AP-LER também irá acompanhar os resultados destas investigações. Esperamos que os responsáveis sejam punidos exemplarmente e que se promovam modificações da situação geradora do acidente de trabalho para impedir novos vitimas.

A diretoria da AP-LER enlutada com mais este trágico acidente se solidariza com a família órfã, enquanto mantemos o nosso firme propósito de impor a referida empresa a modificação desta condições de trabalho desumanas que vitimam diariamente seus trabalhadores. 

Dia 30 de novembro, nesta segunda-feira no Fórum Trabalhista da cidade de Toledo teremos mais uma audiência da Ação Civil Pública que o Ministério Público do Trabalho e a AP-LER movem contra a Sadia.

Nas audiências anteriores e em reuniões de conciliação entre as partes envolvidas, já foi possível acordar algumas de nossas reivindicações. Porem as que faltam e que são as mais importantes, por que podem inclusive merecer tutela antecipada, só serão julgadas agora.

Estamos confiantes e acreditamos que possamos obter do Poder Judiciário, através deste julgamento uma sentença  capaz de garantir a vida e a saúde de todos os trabalhadores da Sadia de Toledo.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

AP-LER elege nova diretoria

Assembléia da AP-LER (Associação dos Portadores de Lesões por Esforços Repetitivos) realizada no dia 25/08/2011, na cidade de Toledo, elegeu nova Diretoria para o biênio 2011-2012. 

A chapa eleita por aclamação ficou assim definida: Presidente: Laerson Vidal Matias; Vice-Presidente: Anderson Francisco; Tesoureira: Ingrid Beatriz Gehn; I° Secretária: Lucia Brentano Vogt e 2° Secretário: Ivo Roque Ostroski.


http://www.jornaldooeste.com.br/cidade/noticias/8795/

Foi também amplamente debatido a necessidade de promover algumas revisões de casos de doenças do trabalho e que estão com a espécie de beneficio previdenciário no INSS, APS de Toledo. Já fizemos uma reunião com a Gerencia local e acordamos encaminhar os casos existentes para apreciação.

Neste sentido a AP-LER fará um requerimento solicitando a alteração da espécie B-31 para B-91 acidentário, anexando a lista de todos os associados que estão nesta condição. Esta medida é urgente, pois existem alguns casos de demissão de trabalhadores ainda em tratamento, que com o retorno ao trabalho e sem estabilidade gerada pelo beneficio acidentário que é de 12 meses após a alta médica pericial.

Nesta oportunidade foi também feito a indicação de Laerson Vidal Matias e Ingrid Beatriz Gehn, para compor o Conselho Municipal de Saúde de Cascavel 2012/2013.

SADIA demite ilegalmente operário em tratamento de saúde


ADÃO DE CRISTO foi demitido ilegalmente, pela SADIA S/A de Toledo no dia 15/04/2011, apesar de estar em tratamento de saúde e incapacitado para o trabalho, conforme atestam os laudos médicos e a pericia no INSS.

 
Durante o período em que laborou na referida empresa, esteve em tratamento médico, medicamentoso e fisioterápico continuamente desde 14/08/2007 quando foi submetido a uma cirurgia no joelho esquerdo.

Sofreu nova cirurgia, desta vez para reconstrução óssea no cotovelo esquerdo, em 29/03/2011, após 3 anos de uma lesão causada por Acidente de Trabalho no qual se feriu ao bater, o joelho contra uma porta de metal no interior da referida empresa.

Em 13/08/2011, submeteu-se a nova cirurgia no joelho esquerdo.

Após a alta medico - pericial do INSS, houve a concessão das férias vencidas e imediatamente após o retorno ao trabalho, foi demitido sumariamente pela empresa.

Cabe aqui a consideração de que esta demissão só foi possível por que o INSS não concedeu o Auxilio Acidentário que gera a estabilidade no emprego de 12 meses após o termino do tratamento médico. 

A AP-LER já esta tratando de rever esta situação perante o INSS de Toledo, pois flagrantemente neste caso, há o desrespeito ao marco legal que estabeleceu o Nexo Técnico Previdenciário NTEP com a negação do referido beneficio. 

Não é nenhuma novidade as demissões ilegais promovidas pela referida empresa na cidade de Toledo, mas o Poder Judiciário irá novamente anular mais esta demissão.

Chama atenção o fato de a SADIA ser ré em uma Ação Civil Pública, movida pelo MPT e  AP-LER, e continuar com estas práticas que atentam contra a dignidade humana das pessoas que vivem do trabalho.

Acidente de Trabalho tira vida de operário na COOPAVEL

SIMÃO CAVALHEIRO DE LIMA, 18 anos, foi admitido para trabalhar na fabrica de rações da COOPAVEL situada as margens da BR 277 na cidade de Cascavel PR, no dia 10 de maio de 2011, na função de Auxiliar da Indústria de Rações I.

No dia 18 de junho de 2011, por volta de 18h30min sofreu um acidente de trabalho, que lhe ceifou a vida.

Segundo a CAT - Comunicação de Acidente de Trabalho, emitido pela empresa, o acidente ocorreu no momento em que o operário tentava "desobstruir a abertura da fita, e foi atingido por bloco de farelo de soja".

A Certidão de Óbito identifica como causa da morte "asfixia por afogamento, afogamento em farelo de soja".

O Laudo emitido pelo Instituto de Criminalística relata que "a morte deve ter ocorrido por volta das 18h30min e que só se notou a falta da vitima após o horário de intervalo do jantar (geralmente das 18n20min às 19h20min)".

Segundo alguns relatos feitos por colegas de trabalho aos familiares, “Simão não trabalhava regularmente neste setor da fabrica” e “foi mandado para lá para substituir um colega, por ocasião da proximidade no horário do jantar”.

O Acidente de Trabalho ocorreu neste intervalo, portanto quando não havia ninguém para socorrer a vitima de seu infortúnio.

Ademais, desempenhar tarefa para qual não se, tenha treinamento adequado, na ausência dos demais trabalhadores do setor, neste caso, parece ter determinado em grande medida o triste fato.

Através do ofício n° 009/11 da AP-LER encaminhamos alguns documentos e depoimentos a Promotoria do Trabalho que já instaurou processo investigatório para apurar as causas do referido acidente fatal.

Esperamos que a identificação das causas desta tragédia sirva ao menos para que estas empresas tomem as medidas necessárias para impedir estes acidentes que tantos males trazem a classe de todas as pessoas que vivem do trabalho.

"Não quero que o Primeiro Emprego de meu filho, seja o último"

O drama vivido pela Sra. Leonir Maria Remonti Chaves, expressado em epígrafe, não deve ser ignorado por todos nós que defendemos a dignidade das pessoas que vivem do trabalho.
AUGUSTO CHAVES DA SILVA, seu filho de 18 anos de idade, arrumou seu primeiro emprego no Frigorífico da COOPAVEL em 10/02/2011.



Um mês depois já apresentava os primeiros sintomas, que aparentemente foram ignorados pela empresa. Foi demitido ilegalmente, pois está doente, em maio último. Neste ambiente de trabalho veio a desenvolver uma patologia vascular,  desencadeada pela temperatura muito baixa do ambiente, que o mantém hoje acamado em casa, com os pés necrosados (foto) e a espera de uma vaga do SUS para  realizar uma cirurgia de amputação nos membros inferiores.   

Em 03 de julho esta situação, veio ao conhecimento da AP-LER e inicialmente oficiamos a PRT, conforme oficio postado em 05/07/2011, com objetivo de impedir esta conduta a nosso ver ilegal e desumana da referida empresa.

Ato contínuo buscamos a Secretaria de Saúde de Cascavel e lá fomos atendidos pelo Secretario Ildemar Canto.  Prontamente foi disponibilizado os medicamentos para o tratamento, uma vez que a família não tem renda e a medicação custa em torno de R$ 300,00 por mês. Além disso, o Secretario preencheu o Padrão de Quesitos, para a solicitação de Auxílio-Doença junto ao INSS.

A AP-LER emitiu a CAT - Comunicação de Acidente de Trabalho no dia 11/07/2011 e a perícia foi antecipada para dia quinta-feira (14/07) às 14:00 horas, dada a gravidade da situação.

Amigos e familiares solidários a este drama estão dando todo apoio necessário o que ameniza o sofrimento desta família. 

Além disso, estamos acompanhando e aguardando pra esta semana a abertura do leito para a internação e realização do procedimento cirúrgico no HUOP, pois o sofrimento físico causado por esta situação é agravado muito pela demora, espera e incerteza quanto ao sucesso do tratamento da doença.

O trabalho não deve ser fonte de sofrimento, mas meio de satisfação e realização profissional. Augusto Chaves da Silva é mais uma vitima deste processo que consome vida e saúde de seres humanos para multiplicar os lucros e a ganância empresarial.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Frigoríficos. ''O medo mantem os trabalhadores na produção''. Entrevista especial com Leandro Inácio Walter

“O trabalho, no frigorífico, torna-se algo instrumental e o sujeito é descartado assim que perde a produtividade”, denúncia Leandro Inácio Walter, psicólogo social, após realizar uma pesquisa com trabalhadores “afastados” de um frigorífico do Rio Grande do Sul. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, ele conta que doenças do trabalho são comuns no processo de produção dos frigoríficos brasileiros, pois as atividades desenvolvidas pelos funcionários são repetitivas. “A organização do trabalho geralmente ocorre em linhas de montagem, em linhas de produção, especialmente nas nórias, onde os frangos são pendurados e o ritmo de trabalho é imposto aos funcionários. As máquinas trabalham e o trabalhador tem que acompanhar o ritmo imposto pela empresa”.
De acordo com Walter, os funcionários relatam que, quando as metas de trabalho não eram atingidas, “uma sirene era acionada, avisando que tinha algo errado”. Em função disso, menciona, os trabalhadores ficaram com sequelas psíquicas e tiveram reações de pânico. “Muitos ficavam agitados só de ouvir qualquer barulho que se assemelhasse a uma sirene, mesmo fora do ambiente de trabalho. Qualquer barulho semelhante trazia essa lembrança do horror das situações que eram vivenciadas no local”, relata.
Leandro Inácio Walter é graduado em Psicologia pela Unisinos e mestre em Psicologia Social pela Universidade do Rio Grande do Sul - UFRGS, com a dissertação intitulada A saúde por um fio: um estudo em psicodinâmica do trabalho de afastados de frigorífico de aves.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que constatou após a realização de estudo sobre a saúde dos trabalhadores de frigoríficos avícolas do Rio Grande do Sul?
Leandro Inácio Walter – Estudei a realidade de um frigorífico gaúcho a partir dos relatos de trabalhadores que estavam afastados do trabalho e estavam sendo atendidos no sindicato da categoria. Constatei uma realidade de intensa agressão à saúde deles, o descumprimento da legislação de saúde e de segurança, e a medicalização dos sintomas para repor o trabalhador mais rapidamente possível no posto de trabalho.
O trabalho, no frigorífico, torna-se algo instrumental e o sujeito é descartado assim que perde a produtividade. Gostaria de ter tido acesso à empresa e, por algumas vezes, tentei contato com a equipe administrativa, mas o frigorífico não abriu as portas para que pudesse acompanhar o processo de trabalho e averiguar porque as pessoas estavam adoecendo. Portanto, a pesquisa teve essa limitação.
IHU On-Line – Como o sindicato se manifesta diante dos casos de enfermidade dos trabalhadores e das doenças geradas pelo trabalho?
Leandro Inácio Walter – Esse sindicato criou um serviço de saúde para atender aos trabalhadores, pois há muita dificuldade para reconhecer as doenças psíquicas no serviço de saúde pública, e no próprio plano de saúde oferecido pela empresa. Para se ter uma ideia, as comunicações de acidente do trabalho emitidas pelo sindicado e pelos médicos do plano de saúde não são reconhecidas pela empresa, sob a alegação de que esses profissionais não conhecem a realidade de trabalho da empresa.
IHU On-Line – As empresas ignoram os casos de doença entre os trabalhadores?
Leandro Inácio Walter – Sim. Inclusive porque, atualmente, nós estamos falando de um setor que tem representatividade no cenário político. Hoje, o Brasil é um dos grandes produtores e exportadores de carne de aves.
Os custos sociais que envolvem essa produção não estão sendo computados pela Previdência. Um levantamento realizado pelo sindicado dos trabalhadores das empresas do estado de Santa Catarina demonstrou que a Sadia contribuiu com 30 milhões ao INSS, no período de 2003 a 2007, e que, em contrapartida, o INSS desembolsou 170 milhões em benefício previdenciário, seja como afastamento do trabalho, aposentadoria por invalidez, etc.
Hoje, os serviços de saúde que atendem aos trabalhadores adoecidos não mudam a realidade de trabalho dentro das empresas. São medidas paliativas, pois as condições de trabalho continuam as mesmas. Os trabalhadores tomam antidepressivos, mas a pressão no trabalho não se altera. A atuação sindical tem esse viés de apenas tratar os sintomas e não a causa, embora estejam tentando dar maior visibilidade aos casos de doença do trabalho.
IHU On-Line – O que caracteriza o trabalho em um frigorífico avícola? Como se dá a organização do trabalho nesse ambiente? O que os trabalhadores revelam sobre as condições de trabalho e como o processo produtivo prejudica a saúde deles?
Leandro Inácio Walter – Apesar da diversidade de setores, as atividades são repetitivas. A organização do trabalho geralmente ocorre em linhas de montagem, em linhas de produção, especialmente nas nórias, onde os frangos são pendurados e o ritmo de trabalho é imposto aos funcionários. As máquinas trabalham e o trabalhador tem que acompanhar o ritmo imposto pela empresa.
Os trabalhadores contavam que, quando não era possível dar conta do ritmo de trabalho em função do cansaço, acumulavam trabalho no final da linha de montagem, onde havia um trabalhador mais ágil, que conseguia ter um desempenho superior. No entanto, esse sujeito que trabalhava na ponta era o que tinha maior possibilidade de se lesionar em função de extrapolar os limites físicos.
Para realizar um trabalho repetitivo, a pessoa não pode pensar em outras coisas porque, se ela se distrair, pode ocasionar alguma falha no processo produtivo. Através da psicodinâmica do trabalho, tentamos entender como ocorre a mobilização da subjetividade em diferentes contextos de trabalho. No caso dos frigoríficos, essa questão repercute de uma forma bastante interessante, porque os trabalhadores acabam usando estratégias de defesa como a racionalização expressa em pensamentos: “Essa situação vai passar”; “Deus está vendo o que estou fazendo aqui”; “Somente hoje vou fazer isso”.
Quando as metas de trabalho não eram atingidas, uma sirene era acionada, avisando que tinha algo errado. Nesses casos, muitos trabalhadores chegavam a ter reações de pânico, de intensa ansiedade e ficavam agitados só de ouvir qualquer barulho que se assemelhasse a uma sirene, mesmo fora do ambiente de trabalho. Qualquer barulho semelhante trazia essa lembrança do horror das situações que eram vivenciadas no local.
Ao cobrar metas, as chefias tratam os funcionários de maneira ofensiva para instaurar o medo no ambiente de trabalho. Eles, por sua vez, muitas vezes não conseguem atender às suas necessidades básicas como ir ao banheiro, tomar água, ir ao atendimento médico da empresa. O medo tem um papel muito forte para manter os trabalhadores na produção.
IHU On-Line – Em sua pesquisa, você menciona a relação entre prazer e sofrimento no processo produtivo dos trabalhadores. Como esses dois aspectos se manifestam e se relacionam no cotidiano dos trabalhadores?
Leandro Inácio Walter – Na psicodinâmica do trabalho, estudamos estados pré-patológicos ou não patológicos no trabalho. Assim, a psicodinâmica do trabalho tenta compreender como o trabalho pode contribuir para a realização pessoal, para a saúde do indivíduo, e como esse sujeito se mobiliza no trabalho, como ele pode obter reconhecimento.
Entre os relatos, os trabalhadores mencionam que o trabalho é importante porque através dele conseguem garantir o sustento e atender às necessidades básicas de suas famílas. Por outro lado, muitos sentem orgulho e prazer de participar de um processo produtivo. Os trabalhadores de frigoríficos avícolas costumavam relatar que, embora fossem bastante produtivos, nem todos eram vistos e reconhecidos pelo desempenho que conseguiam ter. Portanto, essa é uma dinâmica de reconhecimento bastante perversa, porque aquele que trabalhava corretamente, que atingia as metas, permanecia no mesmo posto de trabalho, enquanto aquele que tinha mais dificuldade às vezes acabava utilizando isso para obter alguma vantagem.
IHU On-Line – É possível estabelecer um diagnóstico da saúde mental dos trabalhadores de frigoríficos avícolas?
Leandro Inácio Walter – Sim, é possível. Realizei nove encontros com os trabalhadores, com duração de uma hora e meia cada um. As pessoas contavam que não se sentiam reconhecidas em seus trabalhos, que as relações de trabalho eram truncadas, que havia agressão verbal, coação física, etc. Quando o clima do trabalho é ruim, há uma degradação da saúde mental dos indivíduos.
Como um indivíduo vai trabalhar em um ambiente de trabalho em que não possui seus direitos básicos respeitados? Ouvi relatos de pessoas que não conseguiam ir ao banheiro e acabavam trabalhando urinadas e defecadas. Nós estamos falando da situação de trabalho de um local que produz alimentos.
Perguntei para os trabalhadores entrevistados se eles comiam frango, e a maioria disse que não. Isso tem a ver com a qualidade do produto que é produzido, com o clima de trabalho que existe dentro da empresa.
Muitos desses sintomas psíquicos se desenvolveram depois de algum tempo em que trabalhavam em frigorífico. Muitas, ao não reconhecerem sua própria realidade de sofrimento, poderiam vir a somatizar o
sofrimento ao adquirir uma LER/DORT, ao estrapolar os límites físicos. Então é possível estabbelecer um diagnóstico na medida que o adoecimento se desenvolveu por características do trabalho que a pessoa desempenhava.
IHU On-Line – Quais são os principais sintomas de doença do trabalho apresentado pelos trabalhadores de frigoríficos?
Leandro Inácio Walter – São geralmente problemas mentais: as pessoas evitam contato social, ficam deprimidas, algumas tentam cometer suicídio, outras apresentam quadros de sofrimento grave. Para se ter uma ideia, muitos dos trabalhadores que participaram da pesquisa vinham acompanhados de familiares, pois tinham medo de se perder na cidade. Eles relatavam que se esquecem das coisas, que chegavam ao mercado e não lembram o que iriam comprar, por exemplo.
IHU On-Line – Que mudanças são necessárias para se reverter o quadro de doenças do trabalho nos frigoríficos brasileiros?
Leandro Inácio Walter – Hoje, está em discussão a implantação da Instrução Normativa n.  47, uma norma regulamentadora que visa instituir pausas obrigatórias durante a jornada de trabalho. Acredito que esta é uma boa alternativa. No entanto, sabemos da dificuldade em relação à fiscalização das empresas pelos órgãos competentes. Certa vez, quando um trabalhador faleceu no setor de carga e descarga da empresa ao ficar preso nos elevadores que conduzem as caixas nas quais os frangos são depositados, o fiscal do trabalho só conseguiu entrar na empresa no dia seguinte com a presença da Polícia Federal. Então os órgãos de fiscalização também encontram dificuldades de fazer o seu trabalho.
IHU On-Line – Por que, em sua opinião, os sintomas psicológicos geralmente são ignorados na avaliação de saúde do trabalhador?
Leandro Inácio Walter – Porque ainda existe muito preconceito com relação às doenças mentais e às doenças ocupacionais do trabalho. Elas têm uma característica de invisibilidade: não se consegue fazer uma ressonância para mostrar que o sujeito entra em depressão por causa do trabalho. Os profissionais do INSS, que fazem a perícia, às vezes não estão preparados para trabalhar com esta demanda e com a saúde psíquica. Por outro lado, existe certo preconceito; eles dizem com frequência que o trabalhador está simulando sintomas, tentando obter ganhos para não trabalhar, etc. O próprio termo “estar encostado” remete à ideia de que o sujeito não está disposto a trabalhar, e isso gera constrangimento e sofrimento ao trabalhador.